Posição 38: Stardust Memories (Woody Allen, 1980) - Na cena inicial de Memórias, Sandy Bates (Woody Allen) está dentro de um trem, aparentemente incomodado por estar ali. Quando olha ao lado, um homem está chorando. Outros passageiros de olhares melancólicos estão indiferentes, como se a rotina da viagem e da tristeza fosse diária. O vagão já está partindo. Antes de ir, o protagonista vê outro trem pela janela. Neste, uma bonita atriz de cinema acena com uma estatueta na mão, enquanto outros astros a cumprimentam. Woody quer trocar de trem, mas o homem de uniforme não reconhece o seu bilhete. Ele se desespera, mas não consegue parar o trem que corre em direção a um depósito de lixo.
Os passageiros chacoalham como se estivessem em um avião em turbulência. Apenas Woody age, o que dá a impressão de que a cena se trata de um devaneio.
O cinema permite que os diretores sonhem e todos vejam. Mas dessa vez não se trata de um sonho. A abertura de Memórias nada mais é do que um convite de Woody Allen para sentemos nos lugares que ainda sobram neste pesadelo.
Vagão pessoal
Sandy Bates é o próprio Woody Allen. Nenhuma novidade, afinal, quem conhece o trabalho do diretor sabe que o baixinho sempre interpreta ele mesmo nos seus filmes. Woody, no entanto, nunca se revelou tanto quanto em Memórias. Em nenhuma outra obra as crises pessoais do cineasta podem ser vistas tão claramente.
Quando mudou o rumo da carreira e passou a escrever filmes “mais artísticos”, Allen passou a enfrentar as críticas dos norte-americanos – apreciadores das comédias, em sua maioria – e os elogios do público europeu, encantado pelo grande diretor dramático que nascera dentro do humorista que surgiu fazendo stand-up nos cabarés de Nova York.
O trem da estrela de cinema representa o caminho mais fácil da profissão, que Woody Allen sempre recusou. Se quisesse, poderia ter continuado a ser o comediante do início da carreira e estaria, provavelmente, tão rico quanto hoje.
Como mostra a cena de abertura, Woody Allen decidiu tomar o vagão diferente. Como a decisão lhe rendeu muitas noites mal dormidas, o diretor decidiu despejar todos os seus pesadelos artísticos e pessoais para a trama de Memórias.
Pode não parecer, mas Woody Allen está preso num trem que parte sob a sua própria direção.
Fãs de cesariana
Inspirado em 8 1/2, de Federico Fellini (autor da frase: ““Prefiro o cinema mentira. A mentira é sempre mais interessante que a verdade”), Memórias é um filme inventivo, distante da realidade, como o sétimo lugar no ranking das artes permite que seja. Assim como os sonhos, o cinema não tem compromisso com a verossimilhança.
A diferença é que aqui o pesadelo está sendo manipulado. Woody Allen tenta ilustrá-lo para que possa, ao fim do filme, entender toda a sua crise pessoal.
Na trama, Sandy Bates precisa encarar fãs e ex-amantes enquanto divulga o seu novo filme. Bates tem dificuldades para entender os seus relacionamentos, pois se irrita fácil. O motivo: seus admiradores o atormentam por todo lugar.
“Me dá um autógrafo?”
“Sim”.
“Sabe, eu nasci de cesariana”
“Aaah..”
O que deveria ser uma cena engraçada só faz rir depois do filme. O clima de Memórias é tão pesado que até os fãs retardados e as tiradas geniais de Allen ( “Uma vez, um médico que era apaixonado por duas mulheres resolveu juntar o corpo de uma e o cérebro da outra numa só pra fazer a mulher perfeita. Ele acabou se apaixonou pela outra, feita com os restos”) são deixados de lado pela situação.
Sandy Bates odeia os fãs e não quer ser engraçado. Ele só queria ser um diretor dramático amado pelas mulheres, mas não consegue ter paz.
Sobre mim e os extraterrestres
Agora é a hora que eu preciso explicar os motivos que me fazem venerar este filme.
Espanco as teclas neste texto há uma semana, mas sempre me atrapalhava quando tentava acompanhar a linha de raciocínio dos dias anteriores. Preciso aprender a dizer tudo de uma vez, num só dia. Como faz o próprio Woody, por exemplo.
Crises profissionais são corriqueiras na carreira de quem escreve. Eu, por exemplo, sinto vontade de parar o texto agora, porque sinto que está ficando grande demais, pedante demais, viajante demais. Acho que só vou escrever amanhã, é melhor descansar. Isso.
Melhor não. Continuando.
Todo mundo passa pelas suas crises. E isso não é coisa de gente rica (meu pai diz isso praticamente todos os dias para as personagens de novelas) ou neurose dos alunos de cursos de humanas, esses drogados. Em toda a minha vida, nunca vi alguém superar uma de forma tão triunfal quanto Woody Allen neste filme (spoilers a seguir, mas leiam. Vocês não vão assistir ao filme mesmo).
Depois de tantos julgamentos e dúvidas, Sandy Bates obtém do céu as respostas para todas as suas perguntas. Mas não é de uma religião, e sim de um disco voador.
Todas as soluções de um drama de uma hora são dadas em alguns segundos por extraterrestres que vieram para a Terra só para bater um papo com o diretor Sandy.
Depois de tanto lutar contra o humor e defender a liberdade de fazer drama, Woody Allen desvenda todos os mistérios do filme com uma piada.
Não é uma contradição, pelo contrário. Woody Allen apenas defende a sua liberdade artística com o próprio pedido feito pelos seus detratores. E ainda tem gente que me pergunta por que o Woody Allen é genial.
Faz todo o sentido que essa cena resolva as complicações da trama. O humor é um sintoma de cura. Talvez seja o remédio, mas a ideia de concordar com o Patch Adams me incomoda.
Sabemos que realmente superamos determinada situação (que não envolva a morte) quando conseguimos rir dela.
Eu me identifico com o Woody Allen. Para mim, ele não me parece tão distante. Analisando toda a carreira dele, eu só consigo vê-lo como humano. Com um timing incrível para o humor, várias ideias geniais, mas um humano – ele é um velhinho que usa óculos e tem medo de morrer, quer coisa mais normal que isso?
Woody Allen não parece ter vocação para ficar triste por muito tempo. Talvez seja o nosso pontoem comum. Passeimal por esses dias e lembrava sempre desse filme. E também do Sérgio Mallandro, com o seu mantra: “se você está triste, não fique triste”. You’ve got to get yourself together, dizia o Bono. Essas coisas bobas me faziam rir.
Acho que eu sou exagerado demais para qualquer drama. Não levo jeito para essas coisas, mas tenho certeza que me daria bem em uma entrevista com uns marcianos num parque de diversões.
Em Memórias, Woody Allen trabalhou para convencer a si mesmo de que estava certo quanto ao drama e saiu sorrindo, ironizando toda a dúvida. Poderia ser assim sempre conosco, se não estivéssemos tão preocupados em estar certos o tempo todo. Às vezes perdemos tempo demais sofrendo, quando poderíamos estar rindo até de algo que não existe.
Memorável: o encontro de Sandy com os alienígenas e Sandy observando Dorrie lendo uma revista (vídeo)
Por Rafael Monteiro








