Na época das previsões pré-Champions, eu tinha os meus motivos para achar que o Olympique de Marseille poderia surpreender no Grupo C. Razões maiores até do que a desconfiança com o trabalho repentino de Leonardo como treinador do Milan.
Uma das razões era a escolha de treinador pelo time francês. Didier Deschamps , ex-capitão da seleção francesa que ganhou a Copa de 1998, foi o responsável pelo retorno da Juventus à primeira divisão italiana. Na própria Champions, conseguiu o seu maior feito, ao levar o inexpressivo Mônaco até a final da Liga. Deschamps parecia o nome certo para o Olympique, único time francês campeão do torneio.
Outro motivo era o elenco formado. Contratações interessantes como Lucho Gonzalez, Heinze e Morientes reforçavam a minha ideia de que era possível um salto maior dentro do grupo, por mais difícil que fosse. Os rápidos Niang e Koné e mais a revelação Ben Arfa (por que é reserva?) completavam a interessante base.
Nos dois últimos jogos do time francês, contra Milan e Real Madrid, os franceses não obtiveram sucesso contra seus concorrentes diretos. Contra o Real Madrid, esbarrou no talento de Cristiano Ronaldo e no próprio desespero, já que já viera desesperado do último jogo contra o Milan.
No San Siro, o Olympique esbarrou no respeito em excesso.
Durante toda a partida, o Milan se arrastou em campo. Seedorf e Pato, essenciais, tiveram atuações apáticas. Ronaldinho Gaúcho deu a caneta mais bonita do ano, reprisada por mais de 5 minutos na televisão aberta, mas foi só isso mesmo.
Niang infernizou Oddo e, posteriormente, Abate no lado direito o tempo todo. Brandão, atacante bem discutível, perdeu as poucas chances que teve. Poucas chances que poderiam ter sido muitas, se o Olympique não tivesse perdido metade do segundo tempo esperando o Milan para o contra-ataque. Quando o Olympique acordou, com a entrada de Morientes e Ben Arfa, duas bolas acertaram a trave, mas já era tarde. O empate teve o gosto amargo da desclassificação.
O Olympique contra o Real Madrid parou em Cristiano Ronaldo. Lucho, o melhor jogador do time, perdeu um pênalti dado por Casillas, que anda em uma fase terrível. Do outro lado do grupo, o Milan fez de tudo para perder a vaga, parando no fraco Zurich. A vitória do Milan sobre o Olympique na primeira rodada acabou pesando.
Sobrou a Liga Europa para o Olympique. Ainda consigo acreditar no sucesso o time azul de Marseille. O que pode pesar é que o time francês corre o risco de perder seu técnico, cobiçado pela seleção francesa. Na atual situação de Liverpool e Juventus, caso os franceses mantenham o treinador, não seria nenhum absurdo vê-los prosperando entre os pequenos os feitos o que eu previa em meio aos grandes.
Por Rafael Araújo







Uma quinzena depois e o mesmo clássico tinha um clima completamente diferente do primeiro. Em Madrid, o massacre anunciado havia virado milagre. Exatamente três dias após a vitória sobre a Roma, os milaneses praticamente ressurgiram dos mortos, passando por cima da defesa galáctica como se não fossem mais corpos, mas sim espíritos.
Leonardo, bem mais confiante em seu cargo, enfim descobriu um melhor esquema para a equipe: 4-3-3, com Ronaldinho e Pato em cada ponta, esquerda e direita, respectivamente. Com o passar do tempo, a dependência por Pato ficou visível, mostrando ainda que o Milan não tem postura definida e que Ronaldinho Gaúcho pena em decidir se quer jogar ou não.
Apesar do elenco espanhol conter mais opções e qualidade superior ao Milan, o Real Madrid ainda não se encontrou completamente. Cristiano Ronaldo ainda faz muita falta, Higuaín e Benzema não casam bem. É comum vê-los batendo cabeça dentro da área. Assim, apenas um consegue render bem. No caso do jogo, Benzema conseguiu e fez 1×0.
Imponderável. Sempre gostei da palavra, muito antes de conhecer seu significado. Hoje, virou palavra fixa em qualquer vocabulário de treinador brasileiro. Quando o bom resultado não vem, a culpa sempre é do tal imponderável.
Pois bem, quando menos se espera, tenha certeza: o imponderável sempre aparece. Ontem, ele havia dado a prévia da sua atuação de gala, com as derrotas de Liverpool e Barcelona e o empate do Internazionale. Hoje, a vez foi do Real Madrid ser surpreendido, mas não por uma zebra.
O gol só saiu por uma infelicidade inacreditável de Dida, digna de uma pelada de empresa metalúrgica. Na criação de jogadas, o Milan penava pra chegar ao ataque, apelando para chutões visando Pato e Inzaghi. Ronaldinho Gaúcho, em todo o primeiro tempo, deve ter conseguido dominar duas entre vinte bolas.
O Real Madrid só levou gol de duas formas este ano: bolas alçadas na área e em contra-ataques. O árbitro, graças ao imponderável -sempre ele - anulou o gol legítimo de cabeça feito por Thiago Silva, depois de uma confusão que gerou um soco no rosto de Raúl. Só que o árbitro não conseguiu evitar o talento de Seedorf, que lançou de forma magnífica para Pato, livre, sem muitos problemas para selar a vitória rossonera.
Quem esperava o confronto da rodada deve ter se envolvido pelo sono depois do almoço. Inter e Barcelona, potenciais favoritos ao título da Liga, fizeram um jogo tão morno, que até Mauro Beting soltou em meio a transmissão da Band que todos os jogos da rodada tinham algo interessante acontecendo, menos no Giuseppe Meazza.
Dificilmente o primeiro lugar do grupo não será do Barcelona. Uma boa atuação pode ter ficado pra outrora, porém, ninguém duvida do poderio do melhor time da Europa. O resultado acabou saindo de bom tamanho, visto que o Barcelona tem todo o favoritismo para a partida de volta no Camp Nou.
O Real Madrid começou com goleada a Copa dos Campeões. Os novos galácticos alternaram sustos com momentos tranquilos em uma partida de 7 gols. 5×2 sobre o FC Zurich, na Suíça, país dos paraísos fiscais e onde não se pode anunciar empresas de apostas, o que fez o time merengue jogar com a camisa preta “limpa”, sem anúncios.
Cristiano Ronaldo jogou bem. Kaká não. Existe uma guerra de vaidades escondida ali, mesmo que ainda não exista faíscas no ar. Depois do gol do português, Kaká parecia estar focado a deixar o seu também, só para não ficar atrás. Acho improvável que os dois brilhem ao mesmo tempo em uma partida. O difícil será algum dos dois deixar o outro sobressair.
Mais Champions League: vale destacar os tropeços de Atlético de Madrid e Juventus, ambos em casa. Principalmente o time espanhol sentirá falta desses pontos mais tarde. Ainda de surpreendente, Grafite marcou os três gols na vitória do Wolfsburg contra o CSKA, por 3×1. Em tempos que Rubens Barrichelo tem chances reais de título na Fórmula-1, Grafite também ousa me calar. De resto, a Terra continua redonda e amanhã será ontem depois de amanhã.
Maradona bem que tentou. Invocou Che Guevara e a si mesmo, lotando um estádio mais acanhado. Fez da área verde uma arena; um local mais denso, mais argentino. A esperança argentina foi jogada aos leões.
A Argentina ainda vive em fartura de craques. O problema está concentrado na zaga – horrenda – e na falta de organização. Maradona abdica de jogar com um homem de área, tendo Lisandro Lopez, Agüero e Milito no banco. A zaga é completamente lenta, com laterais em fim de carreira e zagueiros como Sebá. Maradona confia mais no seu carisma do que em seu time.
Kaká é a grande estrela. Um jogador em êxtase, decisivo. Essencial na equipe, é ele que puxa os contra-ataques, única maneira com que a equipe sai para o jogo. Com um meio de campo apenas marcador, a seleção é dependente das arrancadas do jogador do Real Madrid. Dunga tem imensa sorte justamente por Kaká ser quem é.
Torcer para o Arsenal é um paradoxo. Se por um lado é um grande prazer assistir ao jogos da equipe, ao mesmo é uma grande angústia. Joga-se bem, mas os títulos teimam em não vir. Desde o desmanche da geração de Henry, nenhum título signficante foi ganho. Até agora, nenhuma Champions League apareceu na sala de troféus do clube. Mesmo assim, futebol bonito nunca faltou. A plástica parece não querer casar com a eficiência.
O Arsenal voltou do intervalo com a mesmo domínio do jogo. A vantagem, que parecia estar consolidada, foi demolida por um pênalti mal marcado pelo árbitro. O gol de Rooney, não só completou a injustiça, como ajudou a esclarecer o que impede o Arsenal de sonhar mais alto.
Ontem, o Principado de Mônaco foi sede do sorteio de grupos mais aguardado do ano. 32 clubes, em oito chaves, dão início à luta pelo título do torneio de clubes mais qualificado de todo o mundo.
O grupo é relativamente forte e complicado. Em nenhuma previsão é comum tirar alguma força do tamanho de Milan e Real Madrid. Por incrível que pareça, o Olympique pode conseguir essa proeza. Com Didier Deschamps no comando, Lucho Gonzales no meio e Morientes no ataque, o time francês não pode ser descartado facilmente. Do lado do Milan, a renovação não aconteceu e a pré-temporada foi frustrante, caindo todo o peso nas costas de Ronaldinho Gaúcho, um jogador já satisfeito por tudo que conseguiu. Já o Real Madrid vem forte com a nova onda de galácticos, sendo favorito óbvio ao título. O difícil será superar a síndrome recente de sempre perder nas oitavas.
Carlo Ancelotti é um senhor no torneio. Campeão duas vezes, deve ser líder deste bom grupo. Atlético de Madrid, com Forlán e Aguero no ataque, tem time pra não fazer feio na competição. O Porto, que perdeu suas maiores estrelas, os argentinos Lisandro López e Lucho González, aparece muito mais fraco. A esperança fica voltada em Hulk, o que não me anima.
A sorte do Arsenal em sorteios já é característica. Todo ano, não importa como o time esteja, um grupo fácil cai no colo de Arsene Wenger. Curiosamente, esse é o único título que os gunners ainda não têm. O AZ, campeão holandês, pode fazer muito bonito esta temporada. E o Olympiacos, dos brasileiros Diogo e Leonardo, ambos gratas revelações da Portuguesa, deve ir pra Copa da Uefa.