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Archive for the ‘Filmes’ Category

Posição 34: Into the wild (Sean Penn, 2007) Eu não tive vontade de fugir assistindo a “Na Natureza Selvagem”.

Se me lembro bem, eu estava muito confortável na poltrona que haviam acabado de dar de presente para o meu pai. Não cogitei me mover de lá. Se a poltrona fosse velha, vá lá, talvez eu resolvesse sentar na cama e, por falta de apoio para as costas, me incomodasse e resolvesse pausar o filme e tomar um ar, meio corcunda. Mas eu estava bem no meu canto. De tão confortável, achava a ideia de juntar as coisas na mochila e fugir por aí uma dessas coisas que a gente só vê em filme.

Nota: poltrona nova é igual caderno recém-comprado: de tão convidativa, a gente é obrigado a preenchê-la.

Nessa época, há dois anos, eu ainda não tinha lido “On the road”, o meu livro favorito do mês passado. O texto hiperativo e embrigado de Jack Keroauc, sim, me fez sentir vontade de encontrar alguma estrada sem fim, daquelas que a gente imagina se perdendo quando quer fugir de algo. Eu queria distância de praticamente tudo. Se tivesse ido, não teria levado nem o espelho para não lembrar de mim.

Obviamente, não fui a lugar algum, mesmo sem ter resolvido absolutamente nada.

Talvez seja por isso que essas fugas da ficção sejam tão encorajadoras: quase ninguém vai. Poucas pessoas largam tudo e resolvem se aventurar por aí, sabendo que as chances de morrer são muito maiores que a de encontrar a Kristen Stewart num vilarejo de beira de estrada.

Não sei exatamente se falta coragem. Pode ser justamente o contrário: falta de covardia. Afinal, fugir dos problemas é algo bem menos corajoso do que enfrentá-los.

Desviando o assunto para On the road: a grande virtude do livro, para mim, são observações reflexivas do protagonista Sal Paradise que, infelizmente, não foram transmitidas totalmente para o filme de Walter Salles. No livro, o alter-ego de Jack Kerouac não simplesmente passa pelos lugares, mas também descreve impressões sobre a vida, a existência e a época dos beatniks. No cinema, pode parecer que ele só queria curtir a vida ao lado de Dean Moriarty, um dos porras-loucas mais legais já escritos, o que é simplista demais.

Lendo o livro, Sal Paradise me parecia também em busca de uma estrada sem fim. Talvez seja essa a grande graça da obra: imaginar-se indo para lugar nenhum. Todo o vazio que pode provocar a falta de destino é preenchido pelas reflexões – as minhas e as do Kerouac, no caso. Confesso que me confundi muito durante a leitura. Todo mundo é meio parecido quando está perdido. Até eu e Jack.

Provavelmente, eu tenha visto “Into the wild” na época errada. Por mais que não seja tão profundo quanto On the road, a história parte do mesmo princípio: a fuga rumo ao encontro de si mesmo. Se assistisse ao filme hoje, ficaria novamente imóvel na poltrona, mas dessa vez pelo menos o pensamento poderia me levar para longe, onde eu me veria distante, perto de alguma placa que me mostrasse o caminho certo ou o posto de gasolina mais próximo.

“Into the wild” está aqui nessa lista pelo que passou a representar com o tempo. Quando eu vi pela pela primeira vez, lembro que fiquei empolgado, mas sem nenhum significado em especial. Era apenas pelo filme em si, um ótimo complemento de 140 minutos para a minha poltrona. Só a trilha sonora de Eddie Vedder que me dizia (e ainda diz) algo pessoal, só que eu não sabia explicar exatamente o que era. Parece que eu compreendo tudo melhor agora. Não criei nenhum codinome para mim, como Alexander Supertramp, mas eu me tornei alguém diferente.

A fuga já não é mais indiferente, pois eu não me sinto mais confortável. Pode ser que seja apenas uma fase que demora para passar. Tomara. Não sei se gosto do “desaconchego” dessas aventuras. Acho até que, se um dia a vontade de fugir fosse muito grande e eu resolvesse partir,  eu iria num caminhão de mudanças, só para poder levar a poltrona do meu pai junto comigo.

Por Rafael Monteiro

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Posição 35: Luzes da Cidade (Charles Chaplin, 1931) Um vagabundo que se apaixona por uma vendedora de flores cega. Nunca um filme precisou de tão pouco para ser bonito.

Mas a beleza de “Luzes da Cidade” não se resume apenas ao argumento.  O filme de Charles Chaplin, na verdade, merece outras duas linhas para cada um dos seus 85 minutos. Ainda assim, devido ao excesso de méritos, talvez não seja suficiente.

“Luzes da Cidade” não precisou nem das palavras. O maior filme da história do cinema mudo fez até com que eu – justo eu, amante dos diálogos – não sentisse falta das conversas, mesmo diante de um desconhecido que eu teria de aturar por duas horas. Correu tudo bem. Não precisei de muito para me dar bem com aquele coitado, dono apenas do seu próprio bigode, que prefere se fingir de estátua a ter que trabalhar. Ele era calado e pobre como eu.

Não sei se o leitor também vai se identificar com o personagem de Chaplin. Nem nome o coitado tem. Provavelmente, essa pobreza faz nascer a compaixão, não uma cumplicidade, que surgiu entre mim e ele quando o vi lutar boxe – a cena mais engraçada do filme, aliás. Ele parecia saber o quanto eu gosto de ver ringue e cinema ao mesmo tempo.

Viramos amigos a partir dali. Acompanhei de perto o seu romance com a vendedora de flores. Uma história inocente, pura e, obviamente, muito bonita. Um amor idealista e, sobretudo, melancólico. Como o cinema e a vida provam, nossa memória determina o que é relevante a partir das lembranças tristes. Se triste for o final, maior a chance de um amor não cair no esquecimento. William Shakespeare concorda comigo.

Começa spoiler (que não é bem um spooooiler):

o final do filme, provavelmente o melhor da história do cinema, não é triste.

Termina spoiler.

“Luzes da Cidade” é um filme mudo, mas não há silêncio. A uniforme trilha sonora está sempre dizendo por Chaplin. Quando a cena de humor, a música é parte da graça, servindo de onomatopeia. Se a cena é de choro, praticamente segura o lenço e encosta a nossa cabeça no ombro, implorando por uma lágrima. É quase uma orquestra. Carlitos, ao seu modo, é o maestro. Tropeça o tempo todo, mas faz com que a trilha soe à sua maneira: simples, ingênua e brilhante.

Há algo de bonito em cada detalhe de Luzes da Cidade. Caberia descrever cada um deles, se fosse possível. Não é. Meu amigo não era muito de falar. Tinha muito o que dizer, mas não por palavras.  O silêncio da cena final explica tudo.

Cidade das Luzes, na íntegra: 

Por Rafael Monteiro

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O único grande problema de “Sea of Love” (1989) é o nome. Não digo pelo original – inspirado na música de Phil Phillips, que também serve de trilha para o filme -, mas sim pelo título lançado aqui no Brasil, o horrível “Vítimas de uma Paixão”.

Fica difícil se desvencilhar da ideia de romance de novela com nome tão piegas. Mas, acredite, por mais difícil que seja: o filme do diretor Harold Becker não é nada disso. O título é só uma ideia brilhante de mais um tradutor extremamente criativo, igual aos que a gente já se acostumou a ver no SBT.

“Sea of Love”, na verdade, é um típico thriller erótico dos anos 80. De tão bom,  lembra bastante os filmes assinados por Brian de Palma e David Lynch. Por não ser tão pretensioso, para mim, chega até a ser melhor que “Veludo Azul”, mas deixa a polêmica para outro dia.

A história não foge do tradicional do gênero: temos um mistério e teremos sexo envolvo ao mistério. Pode inverter os dois de ordem, não faz diferença.

O detetive Frank Keller (Al Pacino), em meio a uma crise da meia-idade, precisa descobrir quem é a mulher que anda matando todos os homens que respondem a um anúncio de encontro no classificado de um jornal. As vítimas são encontradas sempre baleadas na nuca, nuas e deitadas de bruços na cama.

Além de um argumento satisfatório, “Sea of love” conta com um ótimo elenco principal: Al Pacino no auge – um ano depois, interpretaria Michael Corleone pela última vez na trilogia “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola -, o sempre divertido John Goodman e a intensa Ellen Birkin, que é, ao mesmo tempo, par romântico de Pacino e principal suspeita da série de assassinatos.

Surpreende que o diretor Harold Becker não tenha tido êxito em nenhum outro filme. Em “Sea of Love”, ele vai muito bem ao equilibrar o suspense e o erotismo da história em cenas noturnas: a noite está sempre em contraste com alguma cor quente, seja do vermelho das roupas de Ellen Birkin ou dos letreiros de neon – o filme é da década de 80, o que você queria?

“Sea of Love”, resumindo, tem ritmo e segura o suspense até o final. Até as cenas de sexo são muito bem executadas.  Um filme que merecia muito mais que as prateleiras das extintas locadoras brasileiras, onde se escondeu por todos esses anos, com vergonha do próprio nome.

Ps: como defesa do tradutor brasileiro, esse guerreiro:  a obra também foi esnobada lá fora, tendo sido chamado de cópia de outros filmes dos já citados Lynch e de Palma. Longe de mim querer desmerecer tal criação brilhante, mas a falta de reconhecimento não foi só culpa dele.

Nota: 8,5 

Por Rafael Monteiro

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Posição 36: Chinatown (Roman Polanski, 1974) – Dois motivos me faziam gostar de Chinatown antes mesmo de assistir:

1 –“noir”. Em francês, significa, entre outras coisas, algo tenebroso, sombrio. De tão bonita, a palavra parece ser sempre dita por uma mulher.

No cinema, os filmes chamados dessa forma geralmente contam com histórias policiais. Chinatown é considerado uma das grandes obras do gênero.

Relacionando a origem da palavra ao uso dela, Chinatown me parecia, enfim, uma grande história de detetive, mas com o charme do sotaque de uma Brigitte Bardot.

“Nooooir”, sussura agora Eva Green, ciumenta. Acalmem-se. Não briguem, ou melhor, continuem. Estapeiem-se, rasguem as suas vestes. Só não chamem o Serge Gainsbourg para dividir o idioma.

O francês é um idioma insuportável quando falado por homens.

2 – o título “Chinatown”. Qualquer filme ou disco com nome de cidade/estado/país já ganha a minha simpatia logo ao nos conhecermos.

Nos álbuns, por exemplo, gosto de idealizar cenários, imaginar encontros entre o casal doente cantado na música, sentar no banco da praça e assistir ao fracasso do compositor de perto. O nome do lugar ajuda a me aproximar da visão do artista.

A imagem que eu tinha do filme era, obviamente, a do bairro de Nova York. Ao contrário do que eu previa, Roman Polanski joga o protagonista Jake Gittes (Jack Nicholson) logo nos minutos iniciais  do longa no meio de um deserto.

Desde o começo, Polanski marca território e tira do controle a história que eu criara a partir do sotaque de atrizes francesas. Ele mesmo aparece em cena, interpretando um mafioso, e agride o nariz de Jake com uma faca – o esparadrapo no rosto de Jack Nicholson acabou virando a grande marca do filme e do trabalho do diretor -, mostrando quem é que manda.

Depois, o cineasta orquestra o surgimento dos seus temas prediletos (alguns bastante pessoais) em cena, como corrupção, estupro, pedofilia e incesto. Polanski entrega uma narrativa lenta, mas com reviravoltas que fazem um caso de adultério tornar-se um nó de interesses financeiros e sexuais.

O lugar é tratado mais como uma espécie de terra perdida pelos personagens. Algo de estranho acontece em Chinatown, mas ninguém é capaz de explicar durante todo o filme.

Pelos temas que aborda e pelo mistério que envolve o cenário, pode ser que o filme de detetive seja mais denso do que o costume, mas ainda assim é cativante.

Provavelmente, o responsável pelo carisma da história é o meticuloso Jake, o investigador marcado pelo esparadrapo no meio do rosto. Com o olhar perdido nas fotografias do escritório, Jack Nicholson provava, pela primeira vez, que era capaz de ser frio, mesmo com o sorriso irônico mais marcante de Hollywood.

Envolto de mistério, Jake Gittes é o fio condutor de uma trama com endereço, mas repleta de atribulações vindas da mente atormentada do diretor. Por mais estranha que seja, Polanski encara a obra como um espelho.

Trata-se de um filme charmoso, instigante, doentio, misterioso. Parecido com a personalidade de Roman Polanski, diferente de tudo que Jack Nicholson já havia feito. Noir como nenhum outro.

Memorável: “Forget it, Jake. It’s Chinatown.” No vídeo (cuidado, cena final)

Por Rafael Monteiro

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Posição 37: From Russia with love (1963, Terence Young) 
Moscou contra 007  demora uns 45 minutos para engrenar. Por causa dos efeitos especiais precários da época, do destaque (necessário) dado à vilã tosquíssima e de toda a enrolação, dá até para falar que o início do filme é muito ruim.

O problema é que o começo de Moscou contra 007 não é lá muito diferente de outros filmes da franquia. Aliás, sejamos sinceros: nenhum filme de James Bond é completamente bom.

Um filme de 007 só se tornaria excelente com uma hipotética junção dos melhores elementos de algumas das obras mais famosas. Como a música de Com 007, Viva e Deixe Morrer (Live and let die, do Paul McCartney), o Sean Connery (o melhor Bond, ao lado do elegante Pierce Brosnan) e as qualidades técnicas e visuais – incluindo a Eva Green, a melhor bond girl – de Cassino Royale.

Os filmes, no entanto, são praticamente idênticos, com quase sempre os mesmos defeitos. Muda-se alguma arma, a bond girl, a cidade ou o ator que interpreta o Bond, mas os velhos erros se repetem na duração do filme, nos diálogos fracos e na previsibilidade das cenas de ação.

O que manteve James Bond vivo por tantos anos – tendo passado ileso por guerras nucleares e troca de tiros com metralhadoras (o agente secreto foi passar perto da morte pela primeira vez em Cassino Royale) – é a marca que sustenta o seu sobrenome, seguido do seu nome.

“Meu nome é Bond, James Bond” é um dos maiores slogans da história da publicidade.

Os filmes de 007 são muito mais que comerciais. Tanto que eu diria que eles são, na maioria das vezes, puros longas publicitários.

Se você reunir um comercial de bebida alcoólica, outro de carro e uma arma, terá algo parecido com qualquer filme do agente secreto.

Como qualquer marca lucrativa, a saga de James Bond vale mais do que merece por tudo que representa. A elegância, o perigo da profissão, as grandes festas e, principalmente, as mulheres formam um pacote completo de produtos para a vida qualquer homem. Pelo menos é assim que idealizamos a nossa vida, depois dos tantos comerciais e filmes que crescemos assistindo.

Bond é um personagem icônico da heterossexualidade masculina, criado a partir da publicidade para garantir lucro por décadas às produtoras de cinema. Os filmes, imperfeitos, sempre foram menores do que o protagonista. Ele vende muito em independentemente de qual seja a estreia, assim como as garrafas de Martini e as BMWs associadas ao seu nome.

O longa que melhor sintetizou todo o valor do personagem foi justamente Moscou contra 007. Depois do início sonolento, o filme empolga com uma sequência que envolve tudo o que se espera da série: um vilão interessante (Donald “Red” Grant, interpretado por Robert Shaw), tensão, pancadaria e perseguição em um ritmo alucinante/frenético/coloque aqui um clichê do gênero. Tudo isso começa dentro de um trem (provavelmente a melhor cena da história da franquia), passa por um carro, barco, iate e até um caminhão carregado de rosas (onde Bond repousa a bond girl, Tatiana Romanova (Daniela Bianchi), enquanto troca tiros com os vilões. Bonito, né?)

Curiosamente, Sean Connery não diz a frase “Meu nome é Bond, James Bond” em nenhuma cena do filme. Assim como não pede nenhum Dry Martini e muito menos pega no volante de alguma BMW.

Dessa vez, James Bond vende o seu produto com muito mais recursos do que alguns segundos de inspiração, uma bela mulher e um jingle de abertura. Moscou contra 007 pode começar como os outros, mas termina como a maioria dos filmes da série prometeu e nunca cumpriu. Justamente por ser o que mais se parece com um grande filme e menos se assemelha a uma propaganda.

Considerações: mesmo com todas as qualidades citadas da segunda parte do filme, confesso que fiquei dividido entre escrever sobre Moscou contra 007 e Cassino Royale. São dois filmes que eu gosto, praticamente, da mesma forma.

A única coisa que eu tinha certeza era de que a posição era do James Bond. E foi essa informação que fez com que você deparasse agora a foto de Sean Connery ilustrando o post, não de um segurança de boate.

Memorável: toda a cena do trem.

Trailer do filme

Por Rafael Monteiro

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Posição 38: Stardust Memories (Woody Allen, 1980) – Na cena inicial de Memórias, Sandy Bates (Woody Allen) está dentro de um trem, aparentemente incomodado por estar ali. Quando olha ao lado, um homem está chorando. Outros passageiros de olhares melancólicos estão indiferentes, como se a rotina da viagem e da tristeza fosse diária. O vagão já está partindo. Antes de ir, o protagonista vê outro trem pela janela. Neste, uma bonita atriz de cinema acena com uma estatueta na mão, enquanto outros astros a cumprimentam. Sandy quer trocar de trem, mas o homem de uniforme não reconhece o seu bilhete. Ele se desespera, mas não consegue parar o trem que corre em direção a um depósito de lixo.

Os passageiros chacoalham como se estivessem em um avião em turbulência. Apenas Woody age, o que dá a impressão de que a cena se trata de um devaneio.

O cinema permite que os diretores sonhem e todos vejam. Mas dessa vez não se trata de um sonho. A abertura de Memórias nada mais é do que um convite de Woody Allen para sentemos nos lugares que ainda sobram neste pesadelo.

Vagão pessoal

Sandy Bates é o próprio Woody Allen. Nenhuma novidade, afinal, quem conhece o trabalho do diretor sabe que o baixinho sempre interpreta ele mesmo nos seus filmes. Woody, no entanto, nunca se revelou tanto quanto em Memórias.

Quando mudou o rumo da carreira e passou a escrever filmes “mais artísticos”, Allen passou a enfrentar as críticas dos norte-americanos – apreciadores das comédias, em sua maioria – e os elogios do público europeu, encantado pelo grande diretor dramático que nascera dentro do humorista que surgiu fazendo stand-up nos cabarés de Nova York.

O trem da estrela de cinema representa o caminho mais fácil da profissão, que Woody Allen sempre recusou. Se quisesse, poderia ter continuado a ser o comediante do início da carreira e estaria, provavelmente, tão rico quanto hoje.

Como mostra a cena de abertura, Woody Allen decidiu tomar o vagão diferente. Como a decisão lhe rendeu muitas noites mal dormidas, o diretor decidiu despejar todos os seus pesadelos artísticos e pessoais para a trama de Memórias.

Pode não parecer, mas Woody Allen está preso num trem que parte sob a sua própria direção.

Fãs de cesariana

Inspirado em 8 1/2, de Federico Fellini (autor da frase: ““Prefiro o cinema mentira. A mentira é sempre mais interessante que a verdade”), Memórias é um filme inventivo, distante da realidade, como o sétimo lugar no ranking das artes permite que seja. Assim como os sonhos, o cinema não tem compromisso com a verossimilhança.

A diferença é que aqui o pesadelo está sendo manipulado. Woody Allen tenta ilustrá-lo para que possa, ao fim do filme, entender toda a sua crise pessoal.

Na trama, Sandy Bates precisa encarar fãs e ex-amantes enquanto divulga o seu novo filme. Bates tem dificuldades para entender os seus relacionamentos, pois se irrita fácil. O motivo: seus admiradores o atormentam por todo lugar.

“Me dá um autógrafo?”

“Sim”.

“Sabe, eu nasci de cesariana”

“Aaah..”

O que deveria ser uma cena engraçada só faz rir depois do filme. O clima de Memórias é tão pesado que até os fãs retardados e as tiradas geniais de Allen ( “Uma vez, um médico que era apaixonado por duas mulheres resolveu juntar o corpo de uma e o cérebro da outra numa só pra fazer a mulher perfeita. Ele acabou se apaixonando pela outra, feita com os restos”) passam despercebidas.

Sandy Bates odeia os fãs e não quer ser engraçado. Ele só queria ser um diretor dramático amado pelas mulheres, mas não consegue ter paz.

Sobre mim e os extraterrestres

Espanco as teclas neste texto há uma semana, mas sempre me atrapalhava quando tentava acompanhar a linha de raciocínio dos dias anteriores.  Preciso aprender a dizer tudo de uma vez, num só dia. Como faz o próprio Woody, por exemplo.

Crises profissionais são corriqueiras na carreira de quem escreve. Eu, por exemplo, sinto vontade de parar o texto agora, porque sinto que está ficando grande demais, pedante demais, viajante demais. Acho que só vou escrever amanhã, é melhor descansar.

Melhor não. Continuando.

Todo mundo passa pelas suas crises. E isso não é coisa de gente rica (meu pai diz isso praticamente todos os dias para as personagens de novelas) ou neurose dos alunos de cursos de humanas, esses drogados. Em toda a minha vida, porém, nunca vi alguém superar uma de forma tão triunfal quanto Woody Allen neste filme (spoilers a seguir, mas leiam. Vocês não vão assistir ao filme mesmo).

Depois de tantos julgamentos e dúvidas, Sandy Bates obtém do céu as respostas para todas as suas perguntas. Mas não é de uma religião, e sim de um disco voador.

Todas as soluções de um drama de uma hora são dadas em alguns segundos por extraterrestres que vieram para a Terra só para bater um papo com o diretor Sandy.

Depois de tanto lutar contra o humor e defender a liberdade de fazer drama, Woody Allen desvenda todos os mistérios do filme com uma piada.

Não é uma contradição, como pode parecer. É uma ironia. Woody Allen apenas defende a sua liberdade artística com o próprio pedido feito pelos seus detratores.

E ainda tem gente que me pergunta por que o Woody Allen é genial.

Faz todo o sentido que essa cena resolva as complicações da trama. O humor é um sintoma de cura. Talvez seja o remédio, mas a ideia de concordar com o Patch Adams me incomoda.

Só sabemos que realmente superamos determinada situação (que não envolva a morte) quando conseguimos rir dela.

Eu me identifico com o Woody Allen. Para mim, ele não me parece tão distante. Analisando toda a carreira dele, eu só consigo vê-lo como humano. Com um timing incrível para o humor, várias ideias geniais, mas um humano – ele é um velhinho que usa óculos e tem medo de morrer, quer coisa mais normal que isso?

Woody Allen não parece ter vocação para ficar triste por muito tempo. Talvez seja o nosso ponto em comum. Passeimal por esses dias e lembrava sempre desse filme. E também do Sérgio Mallandro, com o seu mantra: “se você está triste, não fique triste”. Essas coisas bobas me faziam rir.

Acho que eu sou exagerado demais para qualquer drama. Não levo jeito para essas coisas, mas tenho certeza que me daria bem em uma entrevista com uns marcianos num parque de diversões.

Em Memórias, Woody Allen trabalhou para convencer a si mesmo de que estava certo quanto ao drama e saiu sorrindo, ironizando toda a dúvida. Poderia ser assim sempre conosco, se não estivéssemos tão preocupados em estar certos o tempo todo. Às vezes perdemos tempo demais sofrendo, quando poderíamos estar rindo até de algo que não existe.

Memorável: o encontro de Sandy com os alienígenas e Sandy observando Dorrie lendo uma revista (vídeo)

Por Rafael Monteiro

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Posição 39: Vivre sa Vie: Film en Douze Tableaux (1962, Jean-Luc Godard) – As câmeras do filme se comportam como detetives. Nana surge de costas, ao longe, às vezes até a perdemos de vista. Não temos tanta intimidade com ela. Somos tão observadores quanto os franceses que a cercam curiosos pelo preço da noite.

Godard nos coloca na posição de qualquer um. A tristeza de Nana (Anna Karina) está em exposição nos olhos marejados. Não há segredos. O corpo e a alma dela estão visíveis a quem possa interessar.

As lágrimas são realçadas pela maquiagem forte. Ela não está bem, mas quer pagar o preço. Ou melhor, deseja ao menos que a encontrem e digam quanto vale essa vida. Nem o filho pequeno ela conhece. Quem sabe o corpo não valha uma resposta.

“Acho que somos sempre responsáveis por nossas ações. Somos livres. Eu levanto a minha mão – eu sou responsável. Viro a cabeça para a direita – eu sou responsável. Estou infeliz – eu sou responsável. Eu fumo um cigarro – eu sou responsável. Eu fechei meus olhos – eu sou responsável. Eu esqueço que sou responsável, mas eu sou.”

Assim Nana nega o papel de vítima e assume toda a culpa que ainda está por vir. Ela agora é prostituta.

A culpa é do Godard

Não há ninguém melhor do que uma prostituta para falar de culpa. Em Viver a Vida, Godard usa o existencialismo para explicar as dores que a vida obrigatoriamente apresenta, o que ultrapassa os limites da profissão mais antiga do mundo.

Na visão do diretor, em uma análise grosseira, Nina paga o preço por viver. As responsabilidades descritas pela protagonista impedem a paz de espírito definitiva. A busca pela feliz ou a fuga da tristeza demanda muito tempo, praticamente a nossa vida toda.

Ela, curiosamente, parece se sentir melhor ao entender a mensagem. Divagar a faz entender melhor a si mesma. Perto do final do filme, Nana já não é mais a mesma (ela até encontra um par para recitar seus livros). Nós, também.

A experiência de quem assiste é similar a de Nana. Qualquer filme de Godard é uma enxurrada de informações visuais e filosóficas. Em Viver a Vida, a impressão que fica é de aprendizado com o cenário dos hotéis baratos de Paris.

“Eu disse que a fuga é um sonho. Afinal, tudo é belo. Você só tem a se interessar pelas coisas, ver a sua beleza. É verdade. Afinal, as coisas são apenas o que são. Um rosto é um rosto. As placas são placas. Homens são homens. E a vida … é a vida “

A essa altura, já estamos convencidos de tudo o que Nana diz. As divagações de Viver a Vida estão nas mesas dos cafés, irresistíveis.  Ao contrário de outras obras, Godard aqui não se faz de difícil.

Dialogues Française

Viver a Vida é um filme simples, dividido em 12 cortes (capítulos, melhor dizendo). Não costuma ser o preferido dos fãs de Nouvelle Vague, mas faz parte da época de ouro de Godard.

Às vezes penso que a história de Nana só me comoveu tanto por ter sido o primeiro filme que entendi do diretor. Antes dele, não havia compreendido uma linha sequer do roteiro de Acossado – grande filme que eu revi e entendi meses depois.

Por outro lado, poucas vezes vi diálogos tão bons quanto os de Viver a Vida. Godard não é um roteirista de impressionar, mas sabia encaixar as falas dos personagens como ninguém (ninguém mesmo) na época da Nouvelle Vague.

Qualquer divagação prende a minha atenção em filmes. Provavelmente seja isso que me faça gostar tanto de cinema. Gosto de ver gente pensando em voz alta. Ajuda no processo de auto-aceitação.

Prendam o Godard!

Spoilers a seguir: Quando Nana finalmente se descobre, a profissão de prostituta lhe cobra o preço pelo envolvimento. Homens armados a seguram pelo braço. A briga de cafetões resvala na vida da protagonista, que cai no chão.

Não há mais responsabilidades. O corpo de Nana enfim aceita o papel de vítima, deitado na calçada. A morte silenciou toda a culpa. O único responsável foge com a claquete. Termina o filme.

Memorável

Por Rafael Monteiro

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