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Existem palavras que perdem o significado do dicionário quando chegam no futebol. Se você procurar no dicionário o que é um clássico, na melhor das hipóteses, achará o significado “tradicional” pra explicar o que são realmente esses jogos. Muito pouco pra quem conhece os tais, muito pouco pra quem assistiu no domingo o clássico paulista.
Equilíbrio durante a primeira etapa, domínio alvinegro no segundo tempo. Um goleiro irreconhecível assustou de um lado, enquanto Ronaldo Nazário não assustava ninguém do outro. O consagrado ídolo do jogo foi quem deu mal exemplo pras criancinhas. ”Improvável” talvez seja um sinônimo que o Aurélio esqueceu de citar no verbete já citado desde o iníco do post.
Naquelas conversas de espera de um clássico cheguei a dizer, mais brincando do que sério, que quem decidiria o jogo seria o André Dias. Ando fraco de palpites ultimamente, mas, de fato, acertei pela metade a previsão. André Dias foi fundamental no jogo, ou melhor, sua saída foi.
Ontem, o excelente conjunto não foi mais o mesmo sem André Dias. Ainda com o zagueiro, o jogo era igual, brigado e com condições e oportunidades proporcionais dos dois lados. A eficiente e velha bola parada do time tricolor já tinha resultado em gol ao time tricolor. Pelo lado dos mandantes, o surpreendente Elias resolvera sozinho e igualara, 1×1.
No segundo tempo, a superioridade numérica prevaleceu. Com um lado direito desguarnecido desde a primeira etapa, o São Paulo pouco podia fazer com os avanços constantes de André Santos. O time de Muricy recuou, esperando aguentar até o final. Rogério Ceni cambaleava, mas a bola só foi entrar nos últimos segundos. Atraso pra nenhum corintiano botar defeito. 
A única baixa da partida, que na verdade é bem pessoal, foi o desempenho de Ronaldo. O atacante não perdeu o domínio da bola em nenhum momento, o que mostra que o problema não é talento. O problema é o corpo que não responde do jeito que deveria, é o peso que não o deixa sair antes de vários o cercarem.
Ronaldo até disse no final do jogo que o São Paulo beira a perfeição. Avaliando pela defesa, setor que encarou Ronaldo, o fenômeno não disse nenhuma mentira. A perfeição é tão cabível, que o sistema fez antagonizar o verbo de Ronaldo e o fazê-lo virar pretérito em pleno campo.
Ronaldo sumiu.
Por Rafael Araújo
Até a antipatia normal contra o Corinthians foi deixada de lado ontem no gol do empate. Em mim, e em todos que assistiram o jogo.
O camisa 9 de branco tem algo a mais que não envolve escudos e torcidas. O interesse mundial por ele, garoto propaganda da ONU, várias vezes eleito o melhor jogador do mundo e talvez a maior marca que o Brasil já teve depois do Pelé, é do tamanho do futebol globalizado.
O clássico se apequena em relação a isso. Não é só futebol em jogo. Milhares de pessoas que torcem o nariz pra futebol pararam pra ver Ronaldo subir(derrubar) o alambrado. Pra quem acha que o futebol só existe na Copa do Mundo, Ronaldo Nazário é a referência de patriotismo, de uma Copa do Mundo trazida para um país que usa muitas vezes da alegria do futebol para esquecer as tristezas da vida. Ronaldo é patrimônio do Brasil, não só do futebol.
Sobre o jogo: não houve primeiro tempo, o clima não permitiu.
No segundo tempo, com uma temperatura mais amena, começou de fato o jogo de futebol. Felipe esqueceu das noções básicas de um goleiro e ousou antecipar uma bola que quicava e tinha altura. Em uma das falhas mais grotescas da história do clássico, Felipe deu o gol para o Palmeiras.
O Palmeiras começou a explorar mais os contra-ataques e criou algumas chances de gol. Não achei que dominou o Corinthians, como muitos disseram.
Até que entrou Ronaldo no lugar de Escudero, esse último que estava prestes a matar alguém dentro de campo.
Dois dribles, um cruzamento e uma bola na trave. O rechonchudo teria feito um boa partida apenas com isso. Mas aproveitando uma falha de Marcão(cruzamento se marca o jogador, não a bola) e a indecisão de Bruno, Ronaldo fez o gol de cabeça, fundamento que sempre foi menos eficiente, e se juntou ao bando de loucos no alto do alambrado.
Em virtude do peso do atacante e da loucura causada pelos torcedores, o alambrado caiu. Só pra ficar marcado na história a loucura que foi isso.
Repórteres querendo uma palavra do fenômeno como se aquele fosse o milésimo gol do Pelé, um árbitro que ficou ainda mais perdido e um comentarista de arbitragem rendido ao talento do 9 serviram como coadjuvantes no pós-glória de Ronaldo.
Ronaldo fez em 20 minutos o que todos os atacantes do Corinthians não fizeram juntos durante o campeonato. Ronaldo, gordo do jeito que está, já é o melhor jogador tecnicamente do futebol brasileiro. Ronaldo não precisa de mais de 5 jogos como esse para Dunga convocá-lo de volta para a seleção. Ronaldo sequer precisa de comentários como esses pra mostrar quem ele é.
O mundo todo já sabe.
Por Rafael Araújo
Fotos: Globoesporte.com
