Posição 39: Vivre sa Vie: Film en Douze Tableaux (1962, Jean-Luc Godard) – As câmeras do filme se comportam como detetives. Nana surge de costas, ao longe, às vezes até a perdemos de vista. Não temos tanta intimidade com ela. Somos tão observadores quanto os franceses que a cercam curiosos pelo preço da noite.
Godard nos coloca na posição de qualquer um. A tristeza de Nana (Anna Karina) está em exposição nos olhos marejados. Não há segredos. O corpo e a alma dela estão visíveis a quem possa interessar.
As lágrimas são realçadas pela maquiagem forte. Ela não está bem, mas quer pagar o preço. Ou melhor, deseja ao menos que a encontrem e digam quanto vale essa vida. Nem o filho pequeno ela conhece. Quem sabe o corpo não valha uma resposta.
“Acho que somos sempre responsáveis por nossas ações. Somos livres. Eu levanto a minha mão – eu sou responsável. Viro a cabeça para a direita – eu sou responsável. Estou infeliz – eu sou responsável. Eu fumo um cigarro – eu sou responsável. Eu fechei meus olhos – eu sou responsável. Eu esqueço que sou responsável, mas eu sou.”
Assim Nana nega o papel de vítima e assume toda a culpa que ainda está por vir. Ela agora é prostituta.
A culpa é do Godard
Não há ninguém melhor do que uma prostituta para falar de culpa. Em Viver a Vida, Godard usa o existencialismo para explicar as dores que a vida obrigatoriamente apresenta, o que ultrapassa os limites da profissão mais antiga do mundo.
Na visão do diretor, em uma análise grosseira, Nina paga o preço por viver. As responsabilidades descritas pela protagonista impedem a paz de espírito definitiva. A busca pela feliz ou a fuga da tristeza demanda muito tempo, praticamente a nossa vida toda.
Ela, curiosamente, parece se sentir melhor ao entender a mensagem. Divagar a faz entender melhor a si mesma. Perto do final do filme, Nana já não é mais a mesma (ela até encontra um par para recitar seus livros). Nós, também.
A experiência de quem assiste é similar a de Nana. Qualquer filme de Godard é uma enxurrada de informações visuais e filosóficas. Em Viver a Vida, a impressão que fica é de aprendizado com o cenário dos hotéis baratos de Paris.
“Eu disse que a fuga é um sonho. Afinal, tudo é belo. Você só tem a se interessar pelas coisas, ver a sua beleza. É verdade. Afinal, as coisas são apenas o que são. Um rosto é um rosto. As placas são placas. Homens são homens. E a vida … é a vida “
A essa altura, já estamos convencidos de tudo o que Nana diz. As divagações de Viver a Vida estão nas mesas dos cafés, irresistíveis. Ao contrário de outras obras, Godard aqui não se faz de difícil.
Dialogues Française
Viver a Vida é um filme simples, dividido em 12 cortes (capítulos, melhor dizendo). Não costuma ser o preferido dos fãs de Nouvelle Vague, mas faz parte da época de ouro de Godard.
Às vezes penso que a história de Nana só me comoveu tanto por ter sido o primeiro filme que entendi do diretor. Antes dele, não havia compreendido uma linha sequer do roteiro de Acossado – grande filme que eu revi e entendi meses depois.
Por outro lado, poucas vezes vi diálogos tão bons quanto os de Viver a Vida. Godard não é um roteirista de impressionar, mas sabia encaixar as falas dos personagens como ninguém (ninguém mesmo) na época da Nouvelle Vague.
Qualquer divagação prende a minha atenção em filmes. Provavelmente seja isso que me faça gostar tanto de cinema. Gosto de ver gente pensando em voz alta. Ajuda no processo de auto-aceitação.
Prendam o Godard!
Spoilers a seguir: Quando Nana finalmente se descobre, a profissão de prostituta lhe cobra o preço pelo envolvimento. Homens armados a seguram pelo braço. A briga de cafetões resvala na vida da protagonista, que cai no chão.
Não há mais responsabilidades. O corpo de Nana enfim aceita o papel de vítima, deitado na calçada. A morte silenciou toda a culpa. O único responsável foge com a claquete. Termina o filme.
Memorável:
Por Rafael Monteiro