Posição 41: Inglourious Basterds (2009, Quentin Tarantino) - Quentin Tarantino é taxado de preconceituoso por muita gente. Se eu não me engano, os detratores chegaram até a contar quantas vezes a palavra “nigga” já apareceu em seus filmes. Não lembro o resultado, mas o número certamente deve ter dado razão suficiente a eles.
Em Jackie Brown, o personagem de Samuel L. Jackson chega a dizer que só está com a surfista Melanie porque ela é branca.
Tarantino realmente dá motivos para o rótulo de vez em quando. Mas todas as denúncias não querem dizer que os filmes sejam embevecidos por preconceitos de cor ou retaliação por religião, como mostra a cena inicial de Bastardos Inglórios:
Landa: Os judeus compartilham o atributo comparável ao de um rato. Não considero a comparação um insulto. Considere por um momento o mundo de um rato. É um mundo hostil, de fato. Mas se um rato entrar pela sua porta agora, o trataria com hostilidade?
LaPadite – Eu suponho que sim.
Landa – O rato já te fez algo para criar essa aversão que sente por eles?
LaPadite – Os ratos transmitem doenças e mordem as pessoas.
Landa – Os ratos causaram a peste bubônica, mas foi há algum tempo. Tanto ratos quanto esquilos transmitem as mesmas doenças. Concorda?
LaPadite – Sim.
Landa – No entanto, presumo que não sinta a mesma aversão a esquilos, não é?
LaPadite – Não, não sinto. É realmente um pensamento interessante, Herr Coronel.
O diálogo entre o judeu francês (LaPadite) e o coronel nazista (Landa) ajuda a explicar a raiva dos nazistas para com os judeus durante a 2ª Guerra Mundial. A conversa resume todo o ódio que os seguidores de Hitler mantiveram sem saber explicar por quê.
Apesar da cena, Bastardos Inglórios não deve ser retirado da prateleira de ficção. Dá até para dizer que o filme fortalece os mitos criados pelos Aliados. No final, são os mesmos norte-americanos que salvam o mundo, com a diferença de que agora eles são bem mais violentos e divertidos – algo obrigatório para os padrões do cinema de Quentin Tarantino.
Ao contrário do que se diz, o diretor não dá a mínima para os preconceitos. Ele apenas os usa com frequência, sem nenhum pudor, para a construção dos personagens. Como o Coronel Hans Landa (Christoph Waltz), por exemplo, que não seria tão brilhante sem o requinte de crueldade ariana.
Para entender Bastardos Inglórios, é preciso entender o cinema antes da história. A única mensagem passada aqui é que os EUA têm o privilégio de ter um Quentin Tarantino.
Aliás, o grupo antinazista, liderado pelo Tenente Aldo Raine (Brad Pitt), realmente existiu. A informação talvez ajude a convencer quem ainda precisa de algo concreto para gostar do filme.
Sinceramente, não gostaria de ter perdido tantos parágrafos com esses méritos. Acho todo esse papo ideológico muito chato.
Se existe algo injusto, em minha opinião (tô aceitando a sugestão do Word), é o detrimento do talento em função de defeitos ou da posição política do artista. Grandes talentos produzem projetos alienantes – que muitas vezes são brilhantes ao mesmo tempo – constantemente. O intervalo comercial da televisão nos mostra isso todos os dias.
Bastardos Inglórios conta com 153 minutos espetaculares, independentemente das preferências do diretor e da maldade dos EUA. Qualquer juízo de valor que não admita as qualidades da obra é injusto.
Ao contrário de A Vida é Bela, o final do filme de Tarantino é pequeno em relação a todo o resto. Fotografia, diálogos e personagens da obra não tinham como cair melhor no cenário de guerra.
Por mais que minta em alguns trechos, Bastardos Inglórios é um filme que cumpre o que promete: mostrar a guerra por um ângulo inédito. Sorte a nossa que a visão era da câmera de Quentin Tarantino.
Memorável: Tenente Aldo Raine fazendo voz de Vito Corleone. Genial
Por Rafael Monteiro
Achei o filme legal. Mas tenho um problema pessoal com filmes que puxam o saco dos EUA em demasia . É que nem os filmes e documentários que vanglorizam os Estados Unidos por sua bravura e honra na guerra do Vietnã, que por sinal, nunca é vista como uma derrota deles, de certo modo humilhante. =P